Saúde

Microbioma intestinal emerge como peça-chave no risco cardiovascular de homens com HIV, aponta estudo internacional
Análise inédita com dados multiômicos revela que bactérias do intestino influenciam inflamação e formação de placas nas artérias — abrindo caminho para novas terapias preventivas
Por MaisConhecer - 06/05/2026


Imagem: Shutterstock


Em meio ao avanço da terapia antirretroviral, que transformou o HIV de sentença de morte em condição crônica, um novo desafio se impõe à medicina: o aumento das doenças cardiovasculares entre pessoas vivendo com o vírus. Agora, um estudo internacional publicado nesta segunda-feira (4), na revista científica eBioMedicine, lança luz sobre um protagonista até então subestimado nesse processo — o microbioma intestinal.

A pesquisa, liderada pelo epidemiologista David B. Hanna, do Albert Einstein College of Medicine, analisou 359 homens — sendo 217 vivendo com HIV — e identificou associações diretas entre bactérias intestinais, inflamação sistêmica e o desenvolvimento de aterosclerose, uma condição caracterizada pelo acúmulo de placas nas artérias e principal fator de risco para infarto e AVC.

Os resultados sugerem que o intestino pode desempenhar um papel central na saúde cardiovascular — inclusive independentemente da presença do vírus.

Visão geral do desenho do estudo. O Estudo de Coorte Combinado MACS/WIHS (MWCCS) é uma coorte multicêntrica de indivíduos vivendo com HIV ou em risco de infecção pelo HIV. Neste estudo, incluímos um total de 359 participantes elegíveis (homens do MACS; 60,5% vivendo com HIV) que realizaram ultrassonografia de artéria carótida em modo B para avaliação de placa aterosclerótica e forneceram amostras fecais para perfilamento do microbioma intestinal por meio de sequenciamento metagenômico shotgun...

Um elo invisível entre intestino e coração

A investigação reuniu dados de múltiplas camadas biológicas — microbioma, metaboloma e proteoma — em uma abordagem conhecida como “multiômica”. Essa estratégia permitiu mapear não apenas quais microrganismos estavam presentes no intestino, mas também como eles influenciam substâncias circulantes no sangue e marcadores inflamatórios.

Segundo o autor principal, Zheng Wang, “o estudo oferece evidências robustas de que certas bactérias intestinais estão associadas ao risco de formação de placas nas artérias, possivelmente mediado por inflamação e metabolismo”.

Entre os participantes, 32% apresentavam placas na artéria carótida — um indicador precoce de aterosclerose. A análise revelou que algumas espécies bacterianas estavam consistentemente associadas a maior ou menor risco dessa condição.

Bactérias “protetoras” e “nocivas”

Duas bactérias chamaram atenção por seu potencial efeito protetor: Adlercreutzia equolifaciens e Eubacterium sp3131. Ambas foram associadas a menor probabilidade de formação de placas arteriais.

A primeira, em particular, apresentou correlação positiva com o colesterol HDL — conhecido como “bom colesterol” — e relação inversa com a pressão arterial sistólica.

“Essas associações sugerem que certas bactérias podem contribuir para um perfil cardiovascular mais saudável”, afirma Hanna. “É um avanço importante na compreensão do eixo intestino-vasos sanguíneos.”

Por outro lado, a bactéria Coprococcus sp13142 foi associada a maior risco de aterosclerose, indicando que o equilíbrio do microbioma pode ser determinante para a saúde cardiovascular.

Inflamação como ponte biológica

O estudo também identificou mecanismos que ajudam a explicar essas associações. Bactérias consideradas benéficas estavam ligadas à redução de marcadores inflamatórios, como a quimiocina CXCL9 — proteína envolvida na ativação do sistema imune e já associada ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Além disso, essas bactérias influenciam a produção de metabólitos com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, como o mesobilirrubinogênio e o palmitoil-etanolamida.

“Os dados indicam que o microbioma pode modular a inflamação sistêmica, um fator-chave na formação de placas arteriais”, explica a coautora Kathryn Anastos.


HIV e risco cardiovascular: uma nova fronteira

Historicamente, o aumento do risco cardiovascular em pessoas com HIV tem sido atribuído à inflamação crônica e aos efeitos colaterais de medicamentos. No entanto, o novo estudo sugere que o microbioma intestinal pode ser um elo adicional — e potencialmente modificável.

Curiosamente, os resultados foram consistentes tanto em homens com HIV quanto sem o vírus, indicando que os mecanismos identificados vão além da infecção em si.

Para Robert C. Kaplan, isso amplia o impacto da descoberta: “Estamos diante de um fenômeno biológico que pode afetar a população em geral, mas que tem implicações especialmente relevantes para pessoas vivendo com HIV.”

O estudo surge em um momento em que doenças cardiovasculares já figuram entre as principais causas de morte global — e crescem entre populações que vivem mais graças aos avanços médicos, como pacientes com HIV.

A possibilidade de modular o microbioma por meio de dieta, probióticos ou intervenções farmacológicas abre novas perspectivas para prevenção.

“Se conseguirmos alterar a composição do microbioma de forma direcionada, poderemos reduzir o risco cardiovascular de maneira inovadora”, afirma Hanna.

Ainda assim, os pesquisadores alertam que os resultados são observacionais e precisam ser confirmados por estudos clínicos.

Um novo paradigma biomédico

A ideia de que trilhões de microrganismos que habitam o intestino podem influenciar diretamente o coração marca uma mudança de paradigma na medicina moderna.

Ao integrar microbiologia, imunologia e cardiologia, o estudo reforça a noção de que a saúde humana é resultado de sistemas interconectados — e que intervenções futuras poderão ir além dos tratamentos tradicionais.

Como resume Zheng Wang: “Estamos apenas começando a entender o papel do microbioma na doença cardiovascular. Mas os sinais são claros — ele pode ser um alvo terapêutico do futuro.”


Referência
Wang Z, Wang Y, Peters B e outros. Análise multiômica do microbioma intestinal e da aterosclerose da artéria carótida em homens com e sem HIV. eBioMedicine, 2026; 127.  DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106281

 

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